“Dona Flor e seus Dois Maridos”, obra literária de Jorge Amado dos anos de 1966, que teve adaptações para teatro, filme e minissérie, e que, pelo tema “polêmico”, passou a fazer parte do imaginário popular brasileiro e hoje vem sido apropriada pelos grupos de poliamor como referência de relacionamento poliafetivo, nem que seja “simbolicamente”. Até porque a cena de Sônia Braga (Dona Florípedes) saindo da igreja com Mauro Mendonça (Dr. Teodoro) e José Wilker (Vadinho) é uma cena clássica reproduzida na TV brasileira.

Porém, para tristeza geral na nação poliamorosa, a obra fala muito mais da monogamia do que sobre relações não-monogâmicas, ela é uma representação muito bem elaborada de como monogamia romântica age de formas misteriosas...e contraditórias
Para quem não leu o livro ou não viu nenhuma das adaptações da obra e tem problemas com spoilers, sugiro que pare nesse momento! Porque vai ter muitas revelações!!!

Vou me dedicar a falar sobre o filme de 1976, dirigido por Bruno Barreto e que tem a canção-tema de Chico Buarque de Holanda, que é a obra que analisei com mais profundidade. O filme é dividido em três partes principais: Dona Flor e Vadinho, Dona Flor e Dr. Teodoro e Dona Flor e Seus dois Maridos. A primeira cena é da morte de Vadinho, o primeiro marido, em um domingo de carnaval. Esta primeira parte do filme são as lembranças de Dona Flor com Vadinho; ele, apesar de ser um ótimo amante, é um péssimo marido, por ser boêmio, viciado em jogos e nos cabarés de Salvador, onde se passa a obra. Nada de novo, já que a monogamia sempre foi somente para a mulher. Nas lembranças de Dona Flor os conflitos da

relação são amenizados pela a intimidade e intensidade do sexo entre o casal, mas que causam um enorme sofrimento a ela.

Após as cenas de lembrança, a narrativa apresenta a Mulher Viúva, que, apesar de respeitar a morte do marido, não anulou o seu desejo sexual, segue o conselho de uma amiga e decide se casar novamente na esperança de não ficar louca de tesão.

A segunda parte é o relacionamento de Dona Florípedes e o Dr. Teodoro. No decorrer do filme a figura do segundo marido é apresentada. Ele é o oposto de Vadinho, a imagem perfeita do homem de bem conservador: letrado, erudito, toca instrumento de orquestra, romântico, tem instabilidade financeira e tem status de doutor em farmacologia. Contudo, apesar de todas essas qualidades ele não tinha o que Flor almejava ter de um casamento que é uma vida sexual ativa. O famoso “É tão bom, mas transa tão mal!”.

Entediada do sexo rotineiro, ela volta a lembrar dos momentos com o primeiro marido. Na obra, Vadinho retorna do além, alegando que regressou por conta dos pedidos dela. A terceira parte, é o conflito de Dona Flor assombrada pelo desejo de transar com fantasma, que só ela vê, e trair o marido vivo. Muitas cenas vão se desenvolvendo até que ela por fim admite o seu desejo e transa com Vadinho. Após aceitar a sua condição, a ordem da vida de Dona Flor por fim se estabelece, ela passa conviver com os dois maridos.

A interpretação que tiro da trama é que Dona Flor não possui uma relação poliamorosa, o que ela tem é uma monogamia “liberal”, para não falar que é um adultério. Por se tratar de uma “relação extraconjugal com o falecido”, dá até para interpretar que não é uma traição, até porque o morto pode ser uma alucinação/metáfora do próprio desejo e que Dona Flor criou essa fantasia para simplesmente se masturbar, porém a ideia é analisar a relação em si.

E partindo desta análise, Dona Flor só fez o que é mais comum dentro das relações monogâmicas, procurou um elemento externo à relação, para satisfazer os seus desejos. No filme, o marido vivo não vê o marido morto. Essa é a pulada de cerca perfeita!
Dentro da obra, sexo e amor passam a ganhar outras dimensões, isso deixa o desenvolver da narrativa ainda mais prazerosa, tudo isso com pitadas excitantes de humor caricatural das personagens no contexto do cinema da pornochanchada. Será que Dona Flor ficaria com os dois se ela estivesse satisfeita sexualmente com o segundo marido? Tudo indica que não, pois o segundo marido atende a todos as expectativas que a sociedade burguesa espera dele, valores conservadores, moralidade cristã e romantismo exagerado.

O filme fala muito mais sobre a liberdade sexual feminina e moralidade da sociedade brasileira do que sobre relações poliafetivas ou não-monogâmicas, o filme foi feito no período da Ditadura Militar, o que chega a ser contraditório. O que dá a entender é que mesmo com o fim dos 20 anos de Golpe Militar, ficamos ainda mais conservadores e moralistas.

Texto de Watila Fernando 

watilafer@gmail.com

Escrito por

Daniel e Ana

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