Por Adam

Quase vinte e cinco anos depois de divorciado, eu não havia mais conseguido estabelecer uma relação que eu considerasse satisfatória para nela permanecer por muito tempo. Até que, cerca de quatro anos atrás, Luna me procurou. Cerca de 12 anos antes desse dia, ela tinha sido uma “ficante”, uma ficante muito querida, com trocas muito ricas em todos os planos. Um sexo maravilhoso aliado a visões de mundo convergentes. Conexão de corpos e mentes. Sempre foi muito bom estar com ela, mas um dia ela me comunicou que iria se casar. Perdemos praticamente todo o contato nesse período de muitos anos.

Ela me procurou para conversarmos, trocarmos ideias. E foi como sempre muito bom. Ela continuava casada, falamos da vida, trabalho, famílias, mundo, Brasil. Havia um desejo latente no ar, mas nada aconteceu. Pouco depois, nos encontramos novamente, agora para satisfazermos aquele desejo. E foi muito bom, como sempre, talvez melhor. Começava ali o que tem sido a melhor definição de uma relação satisfatória na minha vida.

Luna tinha então 41 anos, estava casada há mais de dez anos e, como costuma acontecer, o sexo estava longe de ser a melhor parte da relação deles. Mas ela tinha claro o sentimento por ele, a vontade de continuar com ele, a importância desse casamento para ela. Não tinha vontade alguma de se separar. Diante da falta de sexo na relação, ela expôs suas necessidades ao marido e disse que não poderia abrir mão disso em sua vida. Depois de muitas conversas, nem sempre fáceis, ele disse a ela para viver o que precisava viver, mas que ele não gostaria de saber ou conhecer detalhes do que ela vivesse. Isso era importante para ela, ser leal ao marido. Ainda que ele não soubesse, era importante para ela não se sentir clandestina na relação com ele. Se ele viesse a saber, não se sentiria traído ou surpreendido.

Tivemos a partir daí uma relação muito rica que chamamos de namoro porque era assim que a sentíamos. Nos encontrávamos com freqüência, viajamos algumas vezes, no Brasil e no exterior. Não apenas o sexo, mas também nossas trocas sempre foram muito ricas, emocional e intelectualmente, ríamos e chorávamos juntos, visões de mundo, princípios e valores muito semelhantes. Eu me sentia feliz nessa relação como não me lembrava de ter sido em outra. Curiosamente, foi o período mais monogâmico da minha vida depois da separação, embora não houvesse nenhum tipo de cobrança ou expectativa em relação a isso entre nós dois. Foi um processo construído de forma que os três eu, ela e o marido, estavam bem com o arranjo. Durante todo esse tempo, ele nunca perguntou nada, ela nunca disse nada. Mas sempre teve clareza de que responderia a tudo que ele quisesse saber.

Há dois anos, Luna se apaixonou por uma mulher, bem mais nova do que ela. Um sentimento que a pegou de surpresa, sem que fosse imaginado, pensado ou planejado antes. Apenas aconteceu. Ela nunca havia tido nada com uma mulher, exceto umas duas ou três vezes em que brincamos com uma terceira parte entre nós, mas nenhuma dessas situações foi particularmente marcante. Ela nunca se havia imaginado em uma relação com uma mulher. E mergulhou profundamente nessa, como sempre foi o seu jeito de fazer as coisas. Mantivemos a nossa relação, mas aos poucos ela foi perdendo o interesse no sexo com homens. E cada vez mais curtindo o sexo com uma mulher. Foi um impacto grande para mim, porque eu estava muito feliz com a relação que tínhamos. Senti falta dela, senti falta do corpo dela. Mas não nos desvinculamos. Continuamos nos vendo, viajando, tendo todas as trocas que sempre tivemos, apenas não tínhamos sexo. E eu descobri que essa relação poderia ser muito boa assim também. Tenho com ela uma sensação de afinidade que nunca tive com nenhuma mulher. Gostamos de estar juntos, de viajar, de conversar, temos gostos semelhantes em relação aos prazeres da vida. E eu senti que não gostaria de perder isso, independentemente do sexo. E assim Luna continua a fazer parte da minha vida e, para mim, eu continuo a vê-la como minha namorada, porque tenho com ela um sentimento amoroso no que essa palavra tem de mais bonito.

Antes da pandemia se iniciar, fizemos uma viagem que foi gostosa como sempre. Trocamos massagens, tomamos banho nus nas cachoeiras. Nossos corpos se conhecem mesmo sem o sexo. No último ano, a relação dela com a namorada se fortaleceu, mas continuamos nos encontrando, embora a pandemia tenha estabelecido limites claros sobre as possibilidades de as pessoas se encontrarem. Temos feito caminhadas, nos sentamos embaixo de uma árvore para conversar, tomar um vinho, falar da vida. E a sinto presente como nunca em minha vida. Na pandemia ela foi um grande suporte para mim em um momento de muitas incertezas, medos, inseguranças.

Hoje, ela vive plenamente a ideia de poliamor, onde existem três pessoas amadas na vida dela, a namorada, o marido e eu. Cada um ocupa um espaço da vida dela, cada um é importante a seu jeito. E estamos todos felizes, embora a namorada seja um pouco ciumenta e possessiva e não muito aberta às ideias de poliamor. Mas a namorada já frequenta a casa dela, conhece o marido, o filho. Ninguém está enganado em relação ao que ela é.

Não há arranjos perfeitos, não há arranjos certos ou errados, mas qualquer arranjo há que ser ético, transparente, leal entre todas as partes. Foi a partir dessa relação com Luna que aprendi que existe, sim, a possibilidade de relações livres, honestas, seja qual for o arranjo possível e desejado entre as partes. Aprendi que a ideia de uma mulher que me “complete”, a quem eu possa prometer exclusividade do meu corpo e da minha alma, não funciona para mim. O que não quer dizer que não funcione para outros. Mas o aprendizado fundamental para mim, nessa história toda, é que percebi que todas as relações que eu iniciava tinham como base um modelo em que, no fundo, eu não acreditava: o modelo monogâmico estabelecido, inquestionável. E começou a ficar claro para mim que a minha dificuldade para estabelecer vínculos e relações não era um problema meu, era um problema do modelo em que eu não acreditava e no qual não me encaixava.

Hoje eu tenho claro que, neste momento, existe uma pessoa na minha vida, Luna, com quem quero continuar me encontrando, viajando, saindo para um café ou restaurante, tomando vinho, fazendo e recebendo massagens… uma mulher que é uma parceira de alma, que me enriquece e da qual não quero abrir mão em nome de nenhuma outra relação. Por isso, pela primeira vez me sinto no dever ético de ser bastante explícito com as mulheres de quem me aproximo: não apenas eu não acredito em uma relação monogâmica, mas, também, existe uma mulher, que chamo de namorada, não importa se haja sexo ou não (até mesmo porque nada impede que haja).

Ter essa clareza é muito bom para mim, mas percebo também que é muito difícil. No meu universo, essa postura é quase uma heresia. E quando me exponho assim para as mulheres, elas saem correndo. A maior parte das mulheres no meu universo (ou em todo o universo?) acredita em alma gêmea, na outra metade, em alguém que te complete, numa relação baseada em exclusividade. E quando deixo claro que não é isso o que quero, me olham com uma cara de julgamento de quem me rotula como promíscuo ou pervertido. Eu poderia ser menos claro, menos explícito, mas sinto que não estaria sendo transparente, que estaria sendo clandestino. Inclusive porque não é uma questão só com Luna. Ainda que nossa relação não existisse, eu hoje percebo que estar numa relação não me fecha a outras oportunidades. E qualquer mulher que esteja comigo precisa saber disso, ainda que jamais se concretize a presença de outra mulher na minha vida. Mas nunca será uma possibilidade que eu negarei. A minha relação com Luna foi ao mesmo tempo a mais livre e a mais monogâmica que já tive na vida. Não por obrigação, por dogma, por promessa. Apenas estava sendo assim. Como também poderia não ser.

Por tudo isso ser muito novo para mim, e também muito complexo, comecei a participar de grupos com pessoas que pensam como eu. A sensação de pertencimento que esse tipo de grupo te oferece é muito boa. Voce descobre que há pessoas que, como você, querem questionar os modelos estabelecidos e que, ainda que haja dificuldades, estão felizes na busca de serem autênticos com eles mesmos. Como há poucas pessoas com essa visão, muitas vezes me sinto sozinho, mas não solitário. Porque percebo que a minha companhia ainda é melhor do que estar acompanhado em uma relação em que não acredito. 

Escrito por

Envio anônimo

Muitas pessoas contribuem com nosso site, mas não sentem confortáveis em revelarem suas identidades, sendo mudamos os nomes, cidades para preservar suas identidades. Polyamor ainda é um mito e muitas pessoas não aceitam que outras possa amar de uma forma diferente do padrão.